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O condenado, o megafone e o filósofo

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Levantou da cama sufocado pelo peso da própria respiração embriagada de tristeza sua. O quarto havia se transformado numa câmara de gás e teve certeza que a casa toda era claustrofóbica quando caminhou até a sala. Abriu a janela e deixou a cidade entrar em seu apartamento tentando achar no meio de sirenes, asfalto e metal, algo que o distraisse.
Apagou a luz esperando que o breu aliviasse ou escondesse a dor que percorria seu corpo em busca de um canto para sentar, acalmar-se e lentamente consumir-se. Mas dor que é dor não descansa nem se transfere. Fechou os olhos enquanto, com uma das mãos, procurava a garrafa e , a outra, perdida tateava a parede em busca do interruptor de luz. De longe, parecia que estava procurando apoio na parede plana, enquanto o corpo caia sobre a única poltrona da sala.
Tinha o que falar. Só não sabia por onde começar. As palavras se acumulavam como o trânsito de Sexta-feira paulistana. Abre sinal, fecha sinal, passa pedestre, volta pedestre, abre sinal, fecha sinal e as palavras continuam ali, como os automóveis, impacientes e ansiosos por seu destino, mas, ao mesmo tempo, presos numa mão única sem escapes e retornos, aglomerados, enfileirados numa linha sem sentido. Dentro de cada automóvel, bem como de cada palavra, um mundo de percepções, lembranças, planos e dores.
Ligou o rádio procurando algo que combinasse com a dor que sentia, como se isso fosse, de alguma forma fazer diferença já que, comprovadamente, noventa por cento das músicas que tocavam no rádio naqueles dias, especialmente as duas e cinquenta e dois da madrugada, falavam de amor, perda, solidão e dor, minuciosamente feitas para consolarem as perdas, amores, solidões e dores de homem, mulher, adulto, avançado ou adolescente. De qualquer forma, não entendia porque, mas ele próprio insistia em procurar trilhas sonoras pros momentos da vida. Parou em qualquer uma delas, seja lá pra que tenha sido feita, consolar amores, relembrar a perda, eternizar a solidão ou reavivar a dor, nos seus ouvidos, encontraria um bom repouso, uma lareira quente, um chá na mesa.
Encheu o copo e pensou no que poderia ter feito. A angústia da resposta teria lhe saído pela boca se não fosse devolvida com um gole e um suspiro.
Talvez devesse mandar flores. Isso. Rosas Carmins. Como a paixão, ardentes, intensas, temporárias mas marcantes, ou orquídeas a nobreza de um sentimento puro, ou, na dúvida, as duas. Mandarias as duas, às centenas. Não. Milhares. Cultivaria flores. Tantas que Versailles iria parecer varenda de apartamento de solteiros.
Resolveu então, escrever seu adeus. Com a caneta, escreveu todos os planos que teve. Não ensaiou, não revisou, são corrigiu. Deixou correr sobre o papel como a corrida de um condenado que decide que o abismo é melhor que o fuzilamento, imaginando que na queda, terá um momento de paz antes de beijar o solo.

“Pediu desculpas por não ser claro, por não demonstrar todos os seus sentimentos. Queria que soubesse que isso era uma defesa, besta, mas útil em determinados momentos mesmo que você não saiba (ainda) quais são. Era o meu jeito. Era assim que eu me protegia da possibilidade de nunca ter você, da possibilidade de ser um bandaid sentimental para um dos seus cortes. Queria pedir desculpa pelo modo que chegou trazendo brisa de domingo a tarde e saindo como um furacão destrutivo, levantando casas, pastos, sonhos e transformando tudo isso numa grande bagunça. Sabia que ia me envolver. Sempre soube e mesmo assim, não sei porque, insisti numa esperança trivial ignorando as consequencias que ela traria.
Devia ter voltado. Colocado o carro na garagem e deitado na cama, como em todas as noites anteriores. Ter deixado cada canto no seu canto, seguindo a ordem natural de todas as coisas.
Esperei mais do que devia querendo uma vida, uma casa, filhos de cabelos cacheados, como Le Petit Prince, café em livraria na beira do parque. Mas eu disse isso não disse?
Minhas desculpas, por não ter sido suficiente. Por, de alguma forma, ter mostrado fraqueza, ou não ter preenchido um espaço, por não ter sido um porto seguro, por não ter sido aquilo que você esperava. Não tinha mais nada para oferecer. Tinha oferecido tudo que podia com os limites que foram dados. Tinha entregue uma parte única que nem mesmo conhecia. Mas tinha.
Tinha privilegiado, preferenciado, tinha aberto mão de algumas coisas e outras tantas pessoas para tentar ser seu.
Tinha feito tudo isso, mas isso não era o suficiente. Por isso, também, desculpas….”

Largou a caneta. Qual o motivo de tudo aquilo? Dizer “te amo”, “te quero”, “te vivo” era tão inútil quanto usar um megafone no espaço. Não existe palavra se não existe ouvido, assim como, não existe amor, se não existe perda, assim como, não existe saudade quando não existe partida e, assim como, não haveria declaração já que não existiria o outro.
Seria assim, um silêncio sepucral disfarçado de um sorriso besta, uma piada sem graça e uma armadura feita de uma altivez amiga, distante e segura. Amassou o papel e na janela deu um sorriso pra cidade. Deixou o papel procurar caminho entre o batente e o asfalto como o condenado. Alguém leria aquilo e pensaria que no mundo ainda existem sentimentos bonitos, queria conhecer uma pessoa dessas. Imaginaria se seria homem ou mulher, alto, baixo, rico, pobre. Não interessaria, ainda assim soltaria, ja sem quase esperança no mundo, um: sentimento bonito esse, bonito mesmo. Deu outro sorriso e fechou a janela. Passou pela sala ignorando a garrafa ao lado da única poltrona. Fechou a torneira interrompendo seu choro. Deitou na cama e fechou os olhos sorrindo, numa cena que se não fosse tão poética, pareceria o filósofo ateniense que se despedia, pensando em morrer por uma noite, afinal, no outro dia era segunda-feira.

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